17
mar
09

SUPER SIMPLE

Não há coincidências. Mas estou em meio a várias. Estou tão empolgada com meu momento “THROW AWAY” que tenho literalmente atraído situações inusitadas. Em meio ao mais absoluto caos, vivo um momento pós-nuclear. Quanto mais mexo e cavuco, mais me impressiono com a minha capacidade (inconsciente e desconhecida) de ter coisas. Coisas com as quais não tenho nenhuma ligação, pois não sou de me apegar a coisas.

Ainda tenho mil fotos, mil situações para contar sobre a minha viagem. Mas realmente preciso escrever sobre mais esse momento de liberação. Criar espaços vazios…
Normalmente sou ansiosa, quero logo ver tudo arrumado, lindo, como uma capa da “CASA CLAUDIA”. Desta vez estou saboreando a liberdade, inclusive de viver um tempo no mais absoluto caos. Hoje, durante um breve intervalo, cercada de papéis rasgados, liguei a televisão e dei de cara com a Oprah mostrando uma reportagem sobre como as famílias americanas estão encarando a crise e como outras famílias descobriram o que tinham acumulado em casa e que poderiam doar. Famílias endividadas, com closets lotados de caixas de sapatos de marca, (uma imagem impressionante) ainda com estiquetas, jeans e jaquetas, e tudo o mais abarrotando um espaço que mal dava para se mexer. Isso sem falar nos quartos de brinquedo onde as crianças mal entram e nos estoques de comida ( tudo bem, eles tem inverno, precisam guardar ” as nozes”). E por traz de tanta coisa, “so much stuff”, todas as famílias foram unânimes em aceitar o desafio de viver uma semana com menos. Menos opções. Sem carro, sem televisão, sem dinheiro e sem tanta coisa. Todas as famílias após essa primeira semana, disseram ter aprendido uma grande lição. Ter muito, não é ser muito. Com menos, as famílias se uniram mais. Sem carro, descobriram o prazer de conversar durante a caminhada ( de dois quarteirões) para a escola. Sem televisão, tiveram que conversar e inventar um momento em família. Sem dinheiro, descobriram que não precisam jogar fora toneladas de resto de comida.
A simplicidade virou moda. Porque simplicidade é melhor do que sandália havaiana.

Outro fato delicioso, é que minha prima querida, minha irmã querida do coração, que já passou por um momento parecido de mudança, ainda conserva algumas coisas das quais precisa se livrar. Coisas grandes, enormes…Que estão entuchadas num guarda-móveis, custando quando pesam…Só que nós mudamos e as coisas não. O clima muda, a vida muda, os objetivos mudam e as coisas são as mesmas. Inanimadas, precisam de nosso empenho para que ganhem novas energias…O mais engraçado é que essas coisas enormes vão fazer uma escala aqui em casa para enfim, serem doadas ou vendidas junto com as minhas. Vai ser muito engraçado, o dia que sair tudo…vão me perguntar se estou me mudando outra vez. E de uma certa forma estou.
Minha mãe e meu pai, eram, cada qual a sua maneira, guardadores profissionais e aficcionados. Cresci, um pouco refém de coisas que eu não entendia porque estavam alí, simplesmente enfeiando o ambiente. Como uma típica libriana, aquilo me deixava doente! E a frase que eu mais escutava era: -Eu sei que eu tenho mas não sei onde está! Essa frase se aplicava a quase tudo. De documentos a livros, de alicate de unha a declaração do imposto de renda.
Transcrevo aqui, um poema que escrevi quando tinha 14 anos, vendo um armário onde meu pai guardava sua vida.

ARMÁRIO ANTIGO

UM CHEIRO PASTOSO EMANA
AO ABRIR-SE A PORTA DAQUELE ARMÁRIO DE ONTEM
BOLAS DE GUDE DOS TEMPOS DE MOLEQUE
VIDRINHOS, POSSÍVELMENTE ÚTEIS UM DIA
QUEM SABE…
FERRAMENTAS, FERROLHOS
FERRRUGENS, FERRAGENS, TAMPINHAS
A PERNA DAQUELA BONECA JÁ MORTA
PARAFUSOS, ROSCAS, ROLHAS
DOCUMENTOS INÚTEIS AGORA
AQUELE VASO QUEBRADO
A TESOURA SEM FIO
UM RIO
DE LEMBRANÇAS, DE AMARGURAS
RADIOGRAFIAS DE DOENÇAS CURADAS
CACOS DILACERADOS QUE FICARAM
DO MUITO TUDO QUE SE FOI
O CAPACETE DA REVOLUÇÃO DE 32 (AINDA ENLAMEADO)
A COLEÇÃO DE MOEAS
OS CALENDÁRIOS DE RETROCESSO
A MÁQUINA QUE JÁ NÃO FOTOGRAFA
A CANETA DO GINÁSIO
FOTOS EMBAÇADAS
O TELEFONE MUDO, TÃO FALANTE OUTRORA
SEGREDOS ENGAVETADOS
SIGNIFICADOS IMPORTANTES
DE MOMENTOS INSIGNIFICANTES
CARTAS SOLITÁRIAS DE UM BARALHO SEM REI
POSSÍVELMENTE ÚTEIS UM DIA
QUEM SABE?

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